Há sete anos atrás, numa viagem turística com minha família, conheci Portugal e encantei-me pela antiga, cinzenta e bucólica cidade do Porto. Apesar de nunca ter estado naquele lugar, as águas do rio Douro trouxeram-me memórias de infância, como toda a atmosfera da cidade fazia-me um convite a uma viagem mais íntima e subjetiva comigo mesma. Vol- tei para o Brasil e depois de quatro anos decidi voltar ao Porto com objetivos mais práticos, estudar e especializar-me na área que então trabalhava, o design gráfico, como também ter a experiência de morar e conhecer outros lugares e pessoas. Posso dizer que a experiência trouxe um retorno àquela rápida e profunda relação que tive com esse lugar, apresentando-se, desta vez, como uma viagem mais interna do que propriamente externa, senti-me mais eu, mais Janaina.
"Experiências poéticas sobre as representações da mulher brasileira no imaginário português" Pesquisa de Mestrado em Design da Imagem da Universidade do Porto-Portugal 2009-2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O discurso corporal...
Sardinhas, Intervenção Urbana no Porto


“Sardinhas” é uma intervenção com sticks na cidade do Porto que aconteceu na tradicional festa de São João. A cidade fica toda colorida, o cheiro de sardinha toma as ruas, sons dos martelinhos de plástico começam a ressoar, guloseimas de vários tipos são vendidas e a cidade prepara-se para assistir o espetá- culo de fogos de artifícios que acontece na Ribeira, local turístico da cidade. O trabalho utilizou um dos símbolos da festa, a sardinha. Segundo o historiador Hélder Pacheco (2011), as verdadeiras origens da festa estão intimamente ligadas ao culto do sol, da natureza, do fogo e da fecundidade, sendo assim uma festa de origem pagã, dedicada ao solstício de Verão. Os sticks foram fixados na área onde tradicional- mente há anos acontece a festa, na Ribeira. Os formatos de sardinhas coloridas escondem um embalado corpo nu feminino. Corpo este que faz referência às simbologias pagãs primárias da festa, porém, é um corpo feminino que embalado parece infértil, mas que ao ser fixado em painéis de propaganda tenta libertar-se. Acontece um diálogo entre um mundo tradicional e primário e a propaganda, linguagem moderna já tão comum no nosso quotidiano. As intervenções foram realizadas com outras pessoas ad- quirindo uma produção coletiva, em que surgiram diálogos e impressões diversas que enriqueceram o trabalho.
Arte urbana
Imagem por encomenda



Este trabalho foi realizado utilizando-se do espaço público como suporte criativo. Sticks, adesivos uti- lizados em intervenções urbanas, com a imagem de dois corpos femininos nus emplastificados foram colados em diversos locais da cidade do Porto, Lisboa e Madrid. Sem tempo definido, sendo produzido de maneira espontânea a pequena imagem intervém em publicidades, em vitrines comerciais, como também em sinalizações no meio urbano. A idéia partiu do conceito de estereotipo, em que imagens do outro são construídas pelos meios de comunicação de massa influenciando no palpável quotidiano social. Esta experiência foi formulada juntamente com outras pessoas, fazendo parte de uma iniciativa do coletivo artístico Escola Livre de Arte Subversiva - ELAS, do qual faço parte no Brasil.
A imagem fictícia pode ir além de influenciar a realidade, transformar-se na própria realidade, é o que acontece por exemplo na publicidade e nos media. Neste trabalho, na medida em que vai-se construindo um diálogo com a cidade e suas simbologias, o discurso expande-se e dialoga com a rua que oferece imensas informações. Inserindo-se dentro do universo das artes de ruas, utiliza-se destes espaços como principal suporte criativo.
Refugiar-se...
domingo, 29 de maio de 2011
Saia de Pedras - Porto-Portugal

Performance ocorrida no dia 29 de maio na cidade do Porto-Portugal, na 8a edição do evento “Serralves em festa”, evento anual que ocorre em Serralves, instituição cultural que tem como missão sensibilizar o público para a arte contemporânea e o ambiente, através do Museu de Arte Contemporânea como centro pluridisciplinar. A intervenção foi realizada com a ajuda de amigos que fizeram todo o registro da ação. Durante cerca de duas horas andei pelos espaços do jardim onde ocorriam espetáculos de dança, teatro e música. Vestida de branco e com o rosto pintado de branco, tinha o objetivo de ser um corpo anônimo, mas não completamente pois carregava uma saia de pedras. Eram saquinhos brancos e trans- parentes que traziam pedras com o nome “Brasil” cuidadosamente escritos em branco em cada uma delas. Eram trinta pedrinhas que dispostas em minha cintura formavam uma pequena saia.
A performance consistiu em percorrer o jardim e abordar as pessoas. Perguntava-as: Qual a tua idéia de Brasil? Pedia-as para responder com uma palavra escrita em um pequeno papel que depois guardava-o em um dos saquinhos juntamente com a pedra, escolhida por elas mesmas. Depois disso as presenteava com um saquinho com uma pedra dizendo-lhes: “Ofereço-te uma outra idéia de Brasil, pode parecer muito dura e estável, mas é só ter um pouco de paciência que ela se desfaz e se transforma. Obrigada.” Outras vezes falava: “Minha saia pesa, preciso que você me ajude.” Uma mulher disse que ajudava com todo o prazer e que nós brasileiros estávamos aqui para alegrar este país. Como uma semeadora, fui aos poucos desfazendo minha saia e deixando pedras no caminho. Algumas coloquei em árvores, outras dei- xei em algum banco, as demais ofereci as pessoas que passavam por mim. As reações foram diversas, poucas pessoas recusaram-se em participar, a maioria parecia muito feliz com o presente. Talvez porque o lugar não era uma rua ou um espaço público comum e sim um espaço institucional onde aceitava-se e produzia-se arte ou discursos artísticos.
No final da ação, fui entrevistada por uma jornalista, foi quando tive oportunidade de explicar o que estava fazendo. É importante dizer que minha performance não fez parte da programação do evento, sendo realizada de forma independente. Queria aproveitar aquele público e experimentar, propor ques- tões, deixar minhas questões, interferir, dialogar, incitar curiosidades etc. O objetivo da performance foi construir um discurso poético sobre o conceito de identidade e todo o seu caráter mutável e dinâmico. Um discurso construído não só por mim, e sim proposto pelo meu corpo e produzido coletivamente no diálogo e nas ações acontecidas durante um breve percurso.


