
"Experiências poéticas sobre as representações da mulher brasileira no imaginário português" Pesquisa de Mestrado em Design da Imagem da Universidade do Porto-Portugal 2009-2011

Boca
La boca
territórios
entradas
saídas
palavras
línguas
sexos
fluxos
identidade?
identidades?
Calo-te agora
Verbalizas teu pranto
Tantos batons te pintaram
Tantos espelhos te olharam
Tantas bocas te beijaram
Tantas vezes estavas aberta
Sempre aberta…
Passagem certa...
Cega…
Agora cala-te.
Ouço melhor o teu fino grito.
O batom vermelho esteve sempre ali
a pintar-te por inteira…
Ele sempre estave ali
procurando-te...
Limites de tuas fronteiras.
Já é hora,
cala-te!
O teu vermelho
já não pertence mais a minha boca.
Dantes te enfeitavas,
agora vens comigo,
alimentas minha fome,
preenches o meu tempo.
tempo perdido
tempo roubado
tempo maquiado
vens...
e procuras sedento…
outros territórios…
outros planos
outras realidades…
Ficar distante de si mesmo.
Ser o outro, ver o outro
e avermelhar-se
de dor e de paixão.
Uma boca fechada é pintada de batom vermelho. O batom é passado repetidamente na boca. Uma cena simples, corriqueira. Uma mão feminina pinta a própria boca. Mas parece que falta algo neste gesto tão banal. Não abre-se a boca. Ela fica calada durante todo o tempo em que é pintada repetidamente. Num primeiro instante o batom manter-se dentro da área permitida, nos lábios, mas poucos segundos depois já ultrapassa fronteiras deste território.

Virgem vermelha é um trabalho em que pretende questionar o lugar que a mulher ocupa dentro dos sistemas religiosos.
As religiões tendem muitas vezes, com o passar do tempo a sacralizar os sistemas dominantes. No Cristianismo construiu-se o mito em que Deus tira a mulher do corpo de homem, especificamente de uma costela. O homem então teve a capacidade de parir a mulher e não o contrário, como em culturas anteriores, em que a capacidade natural das mulheres parirem dava às mulheres um carácter sagrado. A mulher então, no cristianismo é seduzida pela serpente e induz o homem a comer o fruto do conhecimento do bem e do mal que fora proibida por Deus sob pena de morte. E por isso são punidos e expulsos do paraíso. Assim a mulher passa a ser ao mesmo tempo desprezada e temida por ser a causa dessa tragédia. Daí para sempre a mulher ocidental vai carregar essa culpa, principalmente na área da sexualidade. Ela vai ser considerada a tentadora, a culpada de todos os males, aquela qeu perturba a relação do homem com a transcendência. Ela é a sedutora, a desestabilizadora do homem e do poder. (Rose Maria Murano, 1990)
Desta forma todo um lado de paixão, sedução, sensualidade foi durante muito tempo reprimido nas mulheres, contribuindo para a construção de um subconsciente feminino que ainda persiste nos dias de hoje. Maria, mãe de Jesus representa o contrário desse arquétipo, ou seja, a bondade, o amor materno, a virgindade, a pureza.
A virgem vermelha proporciona visualmente um encontro com os contrários, o bem e o mal, a pureza e a sedução, a inocência e a sensualidade etc. Opostos estes que, diferente do que se pensa commumente, se complementam no arquétipo feminino inicial e não se contradizem. No processo de formação da civilização patriarcal estas características separaram-se e as pessoas são regidas por dualidades, partindo da principal delas, a sexualidade masculina e feminina.